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Golpe do falso sequestro ainda causa pânico, prejuízo e até morte

Flávio Tasinaffo

14/02/2020 04h00

Talvez por ser muito antigo, sempre que eu comento sobre o golpe do Falso Sequestro, identifico reações de surpresa. "Como é possível que alguém ainda caia neste golpe?", é uma das perguntas recorrentes.

De fato, o golpe do falso sequestro, assim como outros aplicados por telefone, tornou-se muito comum há algumas décadas, junto com o boom dos celulares.

Ocorre, porém, que os golpistas são ardilosos e identificam, com facilidade, as fragilidades de suas vítimas. Golpes rotineiros como esse, aliás, é que me motivaram a iniciar o Tudo Golpe, para orientar as pessoas a perceberem os sinais de uma prática criminosa.

Muitos já conhecem o modo de operação dos golpistas no Falso Sequestro. Eles ligam para um número de telefone e dizem que sequestraram um parente próximo da vítima. Algum integrante da quadrilha começa a simular uma voz de choro e desespero, pedindo por socorro. Aterrorizada com a situação, muitas vezes a pessoa que está ao telefone fica sem saber como agir e acaba dizendo, ela própria, o nome de alguém.

Com essa informação, os golpistas se tornam ainda mais convincentes e exigem um depósito para que o parente seja libertado.

O Tudo Golpe recebeu manifestações, em suas redes sociais, de alguns seguidores que foram vítimas do golpe ou conhecem pessoas que foram. Optamos por preservar seus nomes:

F.B.C. contou ao Tudo Golpe que recebeu uma ligação em seu serviço, achou a voz parecida com a da sua filha e chamou-a pelo nome. Eram golpistas que passaram a fazer ameaças terríveis. Por sorte, ela foi até a vizinha e pediu para que a ajudasse. Ligaram para a escola da filha e descobriram que era tudo um golpe.

M.L.S. disse que, em seu bairro, duas pessoas foram vítimas do golpe do falso sequestro e chegaram a fazer o depósito. Comentou que o marido dela também quase caiu no golpe, mas ela conseguiu interferir a tempo e tranquilizá-lo, esclarecendo que estava tudo bem com o filho do casal.

O final foi trágico para um tio de D.S., que, infelizmente, ao receber uma ameaça de falso sequestro, teve um infarto fulminante. E, lamentavelmente, não é um caso isolado. Mês passado, um senhor de 61 anos, do município de Mandaguari, a 51 quilômetros de Maringá, no Paraná, recebeu uma ligação de um estelionatário dizendo que a filha dele havia sido sequestrada. A informação era falsa, mas, com o susto, a vítima acabou infartando e não resistiu.

Há situações em que os criminosos sequer precisam de um telefonema para obter os dados necessários para aplicar o golpe do falso sequestro.

Nas redes sociais, muitas pessoas publicam todas as informações de que os golpistas precisam: fotos, nomes, grau de parentesco. Nem tudo deve ser compartilhado, e é fundamental que o usuário entenda e utilize as ferramentas de privacidade das redes em que mantém conta.

Há versões mais modernas do golpe do falso sequestro sendo aplicadas. Com informações obtidas em redes sociais, golpistas conseguem enganar, simultaneamente, vários integrantes de uma mesma família.

Em julho do ano passado, uma idosa recebeu uma ligação dizendo que a filha e a bisneta haviam sido sequestradas e exigiram R$ 20 mil para que nada acontecesse com elas. Pediram que ela saísse de casa, fosse até um shopping próximo à sua residência e fizesse a transferência. Ela tentou, mas, como já era noite e o banco, por segurança, não permitiu que a transação fosse realizada, os criminosos ordenaram que ela voltasse para casa, deixasse um bilhete para sua família com o telefone da quadrilha e, em seguida, se hospedasse em um hotel. Quando a família chegou em casa e não encontrou a idosa, ligou imediatamente para o telefone que estava no bilhete. Começou, então, uma nova etapa do golpe. Disseram que a idosa é que havia sido sequestrada e exigiram R$ 10 mil para libertá-la. Neste caso, uma equipe especializada antissequestro conseguiu identificar que estava em curso um golpe de extorsão, e nenhum dos envolvidos chegou a efetuar o pagamento.

Outra história, porém, não teve o mesmo desfecho. Neste caso, as vítimas, além de sofrerem violência psicológica, tiveram um enorme prejuízo financeiro. Um casal de aposentados ficou desaparecido por 48 horas, suas fotos já estavam em redes sociais, e a família estava desesperada. Na verdade, os idosos haviam recebido uma ligação informando que a filha havia sido sequestrada. Foram orientados a deixar o telefone fora do gancho e a hospedarem-se em um hotel, de onde ficaram recebendo instruções e ameaças por dois dias inteiros. Como há limites estabelecidos pelas instituições bancárias, os golpistas os fizeram percorrer várias agências e realizar pequenos depósitos, que, somados, ultrapassaram R$ 300 mil. A filha do casal havia comunicado o desaparecimento dos pais à polícia, o que foi determinante para que o golpe fosse descoberto. A Polícia Civil entrou em contato com as agências para comunicar o crime, e uma das instituições informou o exato momento em que o casal estava prestes a realizar mais um pagamento. Os policiais foram até o local e explicaram o que estava acontecendo.

Quero deixar 5 dicas simples de como agir se receber uma ligação anunciando um sequestro:

  1. Ligue imediatamente para o parente citado pelos golpistas ou para alguém próximo a ele.
  2. Se não for possível ligar naquele momento, peça informações muito específicas, que somente este parente saberia responder. Pode ser qualquer coisa: o nome de tios, avós, algum animal de estimação, lugares que visitou. O objetivo é ter certeza de que eles realmente estão com aquela pessoa. Então, só tenha cuidado de certificar-se de que não são informações que estão públicas em uma rede social que possa ter sido acessada pelos golpistas.
  3. Não faça depósitos e transferências bancárias.
  4. Ao menor sinal de dúvida de que um sequestro realmente esteja em curso, comunique a Polícia Militar. Por mais que os criminosos pressionem para que as autoridades não sejam acionadas, esta ação é imprescindível para que a ocorrência seja tratada da melhor forma.
  5. Muitas vítimas, por vergonha, não denunciam ou compartilham suas experiências. Disseminar informação é uma ferramenta muito poderosa para evitar que outras pessoas caiam no mesmo golpe. Comece comentando e compartilhando este texto.

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Flávio Tasinaffo é advogado, pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal Econômico e tem 35 anos de experiência no segmento de prevenção à fraudes

Sobre o Blog

O blog Tudo Golpe é a extensão de um projeto criado por Flávio Tasinaffo (http://tudogolpe.com.br/) com o objetivo de alertar e ajudar as pessoas a não caírem em golpes rotineiros.