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Vendem-se cachorros que falam e a torre Eiffel: relembre golpes históricos

Flávio Tasinaffo

23/12/2019 04h00

Já que final de ano é tempo de retrospectiva, hoje o blog irá relembrar alguns golpes que entraram para a história.

Golpista fingiu ser piloto, médico e advogado

Você já assistiu ao filme "Prenda-me se for capaz", com Leonardo Di Caprio e Tom Hanks? A obra é baseada na verdadeira história de Frank Abagnale Jr.. Mestre na "arte" da enganação,

Abagnale usou muitos disfarces. Falsificou um cartão de identificação, conseguiu um uniforme e fingiu ser piloto da companhia aérea Pan Am para voar de graça ao redor do mundo.

Passou-se por médico pediatra e, na profissão, quase sempre dava um jeito de transferir para seus colegas as tarefas mais difíceis. Por pouco não deixou um bebê morrer por falta de oxigênio.

Forjou diploma de advogado formado em Harvard e também foi professor de sociologia em universidade, sem jamais ter se qualificado para tal.

Assumiu muitas identidades, fraudou cheques e causou prejuízos de milhões de dólares em 26 países. Quando foi preso na França, todos os países em que havia cometido crimes pediram sua extradição. Depois de algum tempo, foi deportado para os Estados Unidos e sentenciado a 12 anos de prisão.

Ficou preso por cinco anos e, por conhecer muito sobre o assunto, foi solto com a condição de que passasse a ajudar as autoridades federais a identificar e evitar fraudes monetárias. Também começou a atuar como consultor e palestrante para alguns bancos. Ele conhecia as artimanhas dos estelionatários e suas dicas foram muito bem recebidas.

Hoje, Abagnale tem uma empresa de consultoria de fraudes e prevenção, e ganha bastante dinheiro ajudando empresários a identificar golpistas. Ele alerta sobre o aumento dos riscos nos dias de hoje: "Com a evolução tecnológica, agora é muito mais fácil fazer isso do que quando eu fiz."

Embora alguns o considerem um gênio, não é assim que ele se enxerga: "Olho como algo imoral, não ético. Eu vivo com um ônus cada dia da minha vida e vou viver assim até morrer."

Enganou traficantes e deu entrevista a Amaury Jr.

No Brasil, também já houve golpista que virou tema de filme. Marcelo Nascimento Rocha já deu falsas carteiradas e adotou muitos nomes e ocupações.

Disse que era sobrinho do dono de uma companhia de transporte rodoviário, e assim viajava de graça. Mentiu que era policial para conseguir hospedagem na faixa e, durante a farsa, pasmem, chegou até a efetuar uma prisão. Fingiu que era repórter da MTV e entrevistou artistas. Foi olheiro da seleção brasileira de futebol, só esqueceu de combinar com a confederação.

No cenário musical, disse ser integrante da banda "Nenhum de Nós". Ele dizia que ninguém lembra mesmo do rosto do baterista. Também escolheu ser guitarrista do Engenheiros do Hawaii, tendo distribuído alguns autógrafos.

Transportou drogas pilotando avião e, quando foi capturado, até os narcotraficantes ele conseguiu ludibriar, escapando da morte quase certa.

Seu "auge" foi no Recifolia, carnaval fora de época que acontece em Recife. Durante o evento, ele se passou por vice-presidente da companhia aérea Gol e filho do presidente da empresa.

Lá, com o prestígio que o falso título lhe trouxe, relacionou-se com artistas e empresários e deu entrevistas para o apresentador Amaury Jr.

Certa vez, na prisão, houve uma rebelião, e ele se passou por integrante de uma facção criminosa para ser escolhido como o detento que lideraria as negociações e depoimentos para a imprensa.

Sua história virou livro, filme e documentário, disponível na Netflix: "VIPs – Histórias Reais de um Mentiroso". E, embora exista uma tendência a romantizar seus atos, o próprio Marcelo diz reconhecer que é um criminoso.

Famoso escritor que nunca existiu

Na literatura, lembro de J.T. LeRoy, forçado pela mãe a ser um garoto de programa. Na adolescência, vestia-se de mulher e era viciado em drogas. Decidiu, então, escrever sobre sua vida, e fez muito sucesso.

O primeiro livro foi "Sarah", lançado em 1999. Depois veio "The Heart is Deceitful Above all Things". No Brasil, o título foi adaptado para "Maldito Coração". As obras caíram no gosto de celebridades, e a segunda rendeu até uma adaptação para os cinemas.

J.T. LeRoy começou a fazer aparições públicas, até que, em 2006, descobriu-se que ele nunca existiu. Ao menos não na vida real.

A verdadeira escritora por trás das supostas autobiografias era Laura Albert, uma operadora de telessexo e cantora de punk rock. Por telefone, a própria Laura costumava se passar por LeRoy. Publicamente, era sua cunhada, Savannah Knoop, quem interpretava o papel, sempre trajada com uma peruca.

Ah, se meu cachorro falasse…

Quanto você pagaria por um cachorro que fala, caro leitor?

Joseph Weil foi um dos maiores trapaceiros de todos os tempos e inspirou até Hollywood, no aclamado filme "Golpe de Mestre", de 1973. Há muitos golpes inusitados envolvendo seu nome. Por exemplo, a venda de água de chuva como se fosse elixir, e um golpe de US$ 2 milhões aplicado no italiano Benito Mussolini.

Mas nada se compara às suas habilidades de ventríloquo, que lhe permitiram vender filhotes de cachorros falantes por grandes quantias.

"O desejo de ganhar algo sem dar nada em troca tem custado caro para a maioria das pessoas que negociaram comigo e com outros golpistas. (…) Mas eu descobri que é assim que a coisa funciona. Uma pessoa média é, em minha opinião, 99% animal e 1% humana. Esses 99%, que são a porção animal, causam muitos poucos problemas. Mas o 1% que é humano é a causa de todas as nossas mazelas. Quando as pessoas aprenderem –e eu duvido que algum dia irão– que elas não podem ganhar algo do nada, o crime irá diminuir e nós viveremos em grande harmonia", disse Joseph Weil.

Dupla ganhou o Grammy, mas só dublava

É do campo da música que vem uma das fraudes mais memoráveis. Os mais jovens, talvez, nunca tenham ouvido falar de Rob Pilatus e Fabrice Morvan, que formaram a dupla Milli Vanilli, fenômeno da música pop no final dos anos 1980 e que levou até o mais importante prêmio da indústria fonográfica, o Grammy. Suas canções invadiram as pistas de dança no mundo todo. No Brasil, serviram de trilha sonora para novelas globais.

Meses após a premiação, porém, descobriu-se que nenhum dos dois integrantes da dupla havia cantado nas gravações do álbum "All or Nothing", e o prêmio foi retirado dos artistas.

John Davis era o verdadeiro cantor por trás da dupla, que apenas dublava as canções. Em 1996, Pilatus foi preso em Los Angeles sob suspeita de tentar roubar um carro e fazer ameaças de morte. Dois anos depois, foi encontrado morto no quarto de um hotel em Frankfurt.

Fazendo dinheiro no forno de casa

Podemos ir para o ramo culinário e voltar um pouco mais no tempo. Em 1716, a norte-americana Mary Butterworth, então com 30 anos, lavava roupas para fora e trabalhava como confeiteira para sustentar os filhos. Mas queria mais.

Em sua cozinha, passou a produzir libras esterlinas. Receita: passe um pedaço de tecido engomado com ferro, corrija as imperfeições e coloque no forno para deixar as notas com aspecto de autênticas.

O negócio prosperou, Brutterworth começou a abastecer várias colônias britânicas, que mais tarde constituiriam os Estados Unidos da América. Passou a contar com apoio de importantes políticos e juízes locais, até que a casa (da moeda) caiu. Mas ela não foi presa.

Sua "cozinha industrial" foi descoberta, mas, como ela só usava material caseiro e sempre lavava o tecido que utilizava para fabricar as notas, não conseguiram reunir provas para incriminá-la. Continuou solta e decidiu seguir o caminho da legalidade, abrindo um serviço de bufê.

Esquema Ponzi: origem da pirâmide financeira

Hoje, muitos golpes envolvendo bitcoins são noticiados com explicações de que não passam de pirâmides financeiras. Na década de 1920, o italiano Charles Ponzi prometia, nos Estados Unidos, retorno de 50% em apenas 45 dias a quem investisse com ele.

A mágica acontecia comprando cupons de reembolso postal na Itália e resgatando seu valor nos EUA. Como o dólar valia mais do que a lira, o negócio parecia imperdível. Houve até quem hipotecasse a própria casa para investir no que ficou conhecido como esquema Ponzi.

O problema é que ele usava o dinheiro de quem entrava para pagar quem saía. ascia a famosa pirâmide financeira. O esquema entrou em colapso e prejudicou milhares de pessoas. Ponzi morreu pobre, no Rio de Janeiro, em 1949.

Vende-se a estátua da Liberdade

Vender grandes monumentos também já foi um "bom negócio". Do portfólio de George C. Parker (1870-1936), a ponte do Brooklin era a que, digamos, tinha mais saída. A estátua da Liberdade também foi vendida por ele algumas vezes.

Outros cartões postais de Nova York, cidade natal de Parker, foram vendidos por este golpista. Ele falsificava documentos para evidenciar ser o proprietário destes cartões postais.

Muitas vezes, as vítimas só percebiam que haviam sido enganadas quando começavam a cobrar ingressos para visitação e, logicamente, eram retiradas pela polícia.

Vende-se torre bem localizada em Paris

O monumento pago mais visitado do mundo, símbolo da cidade luz e de toda a França, também já foi bom negócio para golpista.

Em 1925, o estelionatário Victor Lustig obteve documentos falsos, fingiu ser funcionário do alto escalão do governo francês e vendeu a torre Eiffel para um empresário do ramo da sucata, que acreditou que poderia desmontá-la para lucrar com as mais de 7.000 toneladas de aço.

Saudades do que eu não vivi em Poyais

E que tal viver e empreender em Poyais, um promissor país da América Latina?
Não, caro leitor. Não adianta revisar os livros de geografia. Poyais só existiu na mente do soldado escocês McGregor, que, no início do século 18, em Londres, inventou este país e começou a vender terras e a trocar libras esterlinas pela inexistente moeda local.

Navios com colonizadores saíram da Europa com destino à Poyais, mas, claro, jamais chegaram ao local, que nunca existiu.

A fogueteira do Maracanã e a farsa de Rojas

Voltando ao país do futebol, o jogo era no Maracanã. Brasil X Chile, 1989. Estava em disputa uma vaga para a Copa do Mundo do ano seguinte. O Brasil vencia o jogo por 1 a 0 , placar que ia garantindo a classificação da seleção canarinho. Aos 28 minutos do segundo tempo, porém, a partida foi interrompida porque a torcedora Rosenery Mello lançou um sinalizador no campo, que caiu próximo ao goleiro chileno Roberto Rojas.

Logo, viu-se o rosto do goleiro coberto de sangue. Alegando falta de segurança, a seleção chilena deixou o campo, e o árbitro encerrou a partida. Rojas saiu amparado por seus companheiros.

Seria o Brasil punido, ficando fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez em sua história? Não, pois tudo não passou de uma farsa. Aproveitando-se da atitude irresponsável da torcedora, Rojas cortou a própria testa com uma lâmina.

Rojas, em um primeiro momento, foi banido para sempre do futebol. Foi perdoado em 2001, quando passou a trabalhar como preparador de goleiros. Ele se arrependeu da atuação dramática daquele ano.

A torcedora, que ficou conhecida como a "fogueteira do Maracanã", foi inocentada e deixou rapidamente as páginas policiais para estampar a capa da revista "Playboy". Ela faleceu em 2011, vítima de aneurisma cerebral.

A grávida de Taubaté

Encerro com uma história que transformou o nome de uma cidade em sinônimo de farsa. A cidade de Taubaté (SP) desempenhou papel importante na evolução histórica e econômica da região do vale do Paraíba e de todo o país.

É reconhecida como a capital nacional da literatura infantil, por ter sido cenário que deu origem às obras de Monteiro Lobato. Foi em Taubaté que o famoso escritor, criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo, nasceu e passou toda a sua infância.

No início desta década, porém, uma história chamou a atenção de todo o Brasil.
Maria Verônica afirmou estar grávida de quadrigêmeos, participou de programas de televisão, emocionou apresentadores e telespectadores, recebeu doações, mas era tudo uma grande mentira.

A barriga era de silicone com enchimento de tecido. As imagens do ultrassom haviam sido copiadas da internet. Ela ficou conhecida nacionalmente como "a grávida de Taubaté".

Foi em 2012 e, naquele ano, a falsa barriga virou adereço de carnaval. Memes se espalharam pela internet, inclusive associando Taubaté a outras personagens com atitudes suspeitas. Quem lembra?

E você, caro leitor? Recorda-se de alguma outra grande farsa que eu não tenha citado aqui? Escreva nos comentários.

Desejo a você e a sua família um feliz Natal!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o Autor

Flávio Tasinaffo é advogado, pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal Econômico e tem 35 anos de experiência no segmento de prevenção à fraudes

Sobre o Blog

O blog Tudo Golpe é a extensão de um projeto criado por Flávio Tasinaffo (http://tudogolpe.com.br/) com o objetivo de alertar e ajudar as pessoas a não caírem em golpes rotineiros.